Local: Museu A Casa do Objeto Brasileiro, São Paulo
Data: 16 de Agosto de 2025
Xingu: Reflexos Indígenas no Design Contemporâneo, São Paulo 2025
Xingu – Reflexos Indígenas no Design Contemporâneo é uma exposição que nasce da convivência e da colaboração entre o povo Mehinaku, do Alto Xingu, e a Yankatu. Mais do que apresentar objetos, esta exposição propõe uma travessia: um processo de aproximação entre o fazer tradicional indígena e o pensamento criativo no design contemporâneo, construído a partir da soma de saberes. Ao longo de anos de encontros, foi tomando forma uma iniciativa que integra conhecimentos, amplia repertórios e reforça a potência do artesanato como expressão cultural viva, coletiva e pulsante.
O que começou em 2019, com uma visita à aldeia Kaupüna, transformou-se em uma relação contínua, marcada por trocas genuínas, aprendizados profundos e vínculos que se fortalecem a cada ano. Nesse percurso, aprofundei meu olhar sobre a beleza e as complexidades do povo Mehinaku, cujas expressões artesanais são amplamente reconhecidas pelos bancos zoomorfos esculpidos pelos homens — peças de rara precisão técnica e carregadas de simbolismo. Mas foi o fazer feminino, nas rodas de fiandeiras que transformam a fibra do buriti em fio, que mais me comoveu. Ali, entre mães, filhas e avós, percebi que existia uma história cotidiana e essencial que ainda não havia cruzado as fronteiras da aldeia com a mesma força. Este projeto também é sobre isso: sobre dar visibilidade ao fazer das mulheres, e sobre reconhecer o buriti como elo, linguagem e herança viva.
A exposição se organiza em dois núcleos curatoriais que se entrelaçam. O Núcleo Tradicional, com curadoria do artista Kulikyrda Mehinaku, apresenta a riqueza dos saberes ancestrais de seu povo em sua forma mais integral e autêntica. São obras que nascem da relação íntima entre território, memória e espiritualidade, expressando uma cultura viva que pulsa no cotidiano.
O Núcleo Contemporâneo, que assino como curadora, reúne peças desenvolvidas em processos de cocriação entre mim e os artesãos da aldeia. Cada obra reflete um percurso de escuta e construção conjunta, em que o design se posiciona como ferramenta de aproximação — nunca como intervenção.
As peças tradicionais ganham novas tonalidades com fios de algodão tingidos com pigmentos da floresta, um saber incorporado às expressões artesanais de um povo que mantém viva a beleza de sua arte.A soma também acontece por meio do diálogo, que permite criar juntos, num vai e vem de ideias até que a forma encontre seu sentido e carregue a mensagem de união. E, como em toda via de mão dupla, o design também se transforma nesse processo — agora registrado em esteiras de madeira maciça que recontam a história por novas perspectivas.
Fazer curadoria, neste contexto, é cuidar. É observar, perguntar e, sobretudo, aprender. É construir pontes que não sobrepõem, mas revelam caminhos possíveis de coexistência entre o design e os saberes tradicionais, em que ambos se fortalecem.
Que esta exposição seja, para quem chega, uma experiência de abertura: para novas formas de ver, para outros tempos de fazer e para diferentes maneiras de nos relacionarmos com as culturas e com o planeta.
Maria Fernanda Paes de Barros
Curadora e Idealizadora
Projeto Xingu – Reflexos Indígenas no Design Contemporâneo
Saiba mais sobre o Projeto Xingu e baixe o Catálogo: Clicando Aqui